O quadro


Sentada, ergue-se a coluna voluptuosa do desleixo dos quadris; e do finíssimo pé às coxas abertas que emudecem da cintura para cima. Levantou-se, debruçando seus cabelos encaracolados até a alça do colo por onde tirou a roupa do corpo para em seguida saciar seus seios em frente ao espelho e dançar carnalmente para dizer que é jovem, e é desejável aos olhos estranhos.

De um quadro a gosto lascivo ao horror maniqueísta (seita cristã de origem persa do primeiro século); quando mulheres não poderiam nem serem sonhadas assim senão como peça inquisidora. No tempo em que o homem era “santo” da cintura para cima, a mulher era um “demônio” capaz de armar ciladas e injúrias, desfazer alianças e esconjurar vigários. O espírito sátiro da forma humana com pernas de bode, orelhas compridas, chifres e cauda; seu retrato é a fina sintonia dos ideólogos de plantão. 

Quem orquestrou a farsa, sabiamente desfez o fio do teatro de dramaturgos, saltimbancos que o encarnavam em comédias ao prazer do riso enquanto suas vergonhas eram mostradas. Nada restou quando todo o poder da imposição sobre o corpo desmoronou em um turbilhão de filmes eróticos, e a pose das estátuas nuas antigas que em outros tempos foram destruídas.

O homem voltou a adorar a si mesmo?